O que acontece com a pele durante o tratamento com GLP-1
Camila Rubim

A balança finalmente mostra o número que você sempre quis. Mas, ao se olhar no espelho, algo parece diferente: o rosto está mais magro, sim, mas também mais cansado. Olheiras mais profundas, pele que parece ter perdido a firmeza, rugas que antes não existiam. E, para completar, uma sensação estranha na pele, como se ela estivesse queimando ou formigando.
Essa experiência tem se tornado comum entre os usuários dos agonistas do receptor GLP-1 — as famosas “canetas emagrecedoras“. E não se trata apenas de uma percepção subjetiva: a ciência já está começando a desvendar os mecanismos pelos quais esses medicamentos afetam a pele, indo muito além da simples perda de peso.
Por que a pele sofre? O papel da gordura facial
A perda rápida de peso reduz o tecido adiposo subcutâneo do rosto, que é essencial para manter a aparência preenchida e jovial. Com menos gordura, o rosto perde sustentação, surgem olheiras mais profundas, as bochechas ficam ocas, os lábios perdem volume e a pele da mandíbula começa a ficar flácida.
O problema é agravado pela velocidade da perda de peso: quanto mais rápido você emagrece, maior o impacto na pele. Isso porque a pele não tem tempo de se adaptar à nova estrutura facial, resultando em um aspecto “murcho” e envelhecido.
Além da gordura: o que a ciência descobriu
Pesquisas recentes mostram que o envelhecimento facial observado com o uso de GLP-1 não se deve apenas à perda de gordura. Há evidências de que esses medicamentos podem atuar diretamente sobre células da pele, acelerando o processo de envelhecimento por mecanismos independentes da perda de peso.
Os receptores de GLP-1 estão presentes em células-tronco do tecido adiposo (células com capacidade de se transformar em diferentes tipos celulares, como adipócitos e fibroblastos). Quando esses receptores são estimulados, ocorrem alterações importantes:
- Redução da capacidade de proliferação e diferenciação: as células-tronco perdem a capacidade de se transformar em células produtoras de colágeno e elastina, proteínas essenciais para a firmeza da pele.
- Menor produção de citocinas protetoras: a estimulação do receptor reduz a produção de substâncias que protegem os fibroblastos (células que produzem colágeno) do estresse oxidativo.
- Queda na produção de estrogênio: as células-tronco do tecido adiposo também produzem estrogênio, que estimula os fibroblastos a produzirem colágeno. Com menos estrogênio, a produção de colágeno cai e a pele envelhece mais rápido.
GLP-1 e doenças inflamatórias da pele
Nem tudo são perdas. Os agonistas GLP-1 também possuem efeitos anti-inflamatórios e imunomoduladores que podem beneficiar algumas doenças dermatológicas.
Psoríase
Estudos mostram que pacientes com psoríase tratados com GLP-1 apresentam melhora significativa na gravidade das lesões. O mecanismo envolve a redução de citocinas inflamatórias como interleucina-17 (IL-17) e fator de necrose tumoral alfa (TNF-α). Em alguns casos, a interrupção do medicamento levou à recidiva das lesões, com melhora novamente após a reintrodução.
Hidradenite supurativa
A hidradenite supurativa é uma doença inflamatória crônica caracterizada por nódulos dolorosos e abscessos em áreas de dobra (axilas, virilha). O tratamento com liraglutida e semaglutida tem mostrado benefícios, com melhora dos surtos e da qualidade de vida. Curiosamente, os efeitos positivos parecem ir além da perda de peso — há evidências de ação direta no sistema imunológico, com redução de citocinas pró-inflamatórias.
Acantose nigricans
Esta condição — manchas aveludadas e escuras em áreas de dobra — está associada à resistência à insulina, comum em obesidade. O tratamento com GLP-1 melhora a homeostase da glicose e reduz os níveis de insulina, levando à melhora gradual das lesões de pele.
Doença de Hailey-Hailey
Uma doença rara que afeta a adesão das células da epiderme, causando bolhas e erosões em áreas de dobra. Um caso relatou melhora quase completa após tratamento com liraglutida, possivelmente devido à redução da expressão de IL-17.
Sensações estranhas na pele: o que são
Nos últimos anos, um número crescente de pacientes tem relatado sensações anormais na pele durante o tratamento com GLP-1 — uma queimação, formigamento ou hipersensibilidade que pode ocorrer em várias partes do corpo. A disestesia é descrita como essa sensação anormal e desagradável na pele.
Uma análise de dados do sistema internacional de farmacovigilância VigiBase, mostrou que cerca de 1% dos usuários relataram esse tipo de sintoma.
Os dados sugerem que a disestesia é dose-dependente — ocorre com maior frequência em doses mais altas e com agonistas mais potentes. Uma descoberta importante é que o sintoma pode ocorrer tanto em pacientes tratados para diabetes quanto para perda de peso, com características semelhantes.
A boa notícia é que, na maioria dos casos, os sintomas se resolvem espontaneamente após a interrupção do medicamento — e muitos pacientes se recuperam mesmo com a continuação do tratamento.
O que fazer para minimizar os efeitos na pele
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Perda de peso gradual
Quanto mais rápido o emagrecimento, maior o impacto na pele. Uma perda de 0,5 a 1 kg por semana permite que a pele se adapte gradualmente.
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Nutrição adequada
A ingestão adequada de proteínas ajuda a preservar a massa muscular, que também sustenta a pele. Além disso, uma dieta rica em antioxidantes pode ajudar a combater o estresse oxidativo que acelera o envelhecimento cutâneo.
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Hidratação
Manter a pele bem hidratada, tanto por via oral (água) quanto com hidratantes tópicos, ajuda a preservar a elasticidade.
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Protetor solar
O uso diário de protetor solar é fundamental, especialmente durante períodos de emagrecimento, quando a pele pode ficar mais fina e sensível.
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Acompanhamento dermatológico
Para pacientes que já apresentam sinais de envelhecimento ou que têm histórico de doenças de pele, o acompanhamento com dermatologista antes e durante o tratamento pode ajudar a monitorar e tratar precocemente quaisquer alterações.
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Procedimentos estéticos
Em casos de alterações faciais significativas, procedimentos como preenchedores dérmicos (à base de ácido hialurônico), bioestimuladores de colágeno (como ácido poli-L-láctico) e tratamentos de radiofrequência podem ser opções para restaurar volume e firmeza.





