Demência: quais sinais em jovens adultos indicam preocupação

Bianca Azevedo

Demência: quais sinais em jovens adultos indicam preocupação

A demência é frequentemente vista como um destino inevitável da velhice, uma sombra que acompanha o envelhecimento. No entanto, essa visão está mudando radicalmente. Especialistas apontam que, na verdade, até 45% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou retardados através do controle de fatores de risco modificáveis ao longo da vida. E o mais revelador: a janela de oportunidade para a prevenção abre-se muito cedo, na adolescência e até na infância. 

O que é demência e seu impacto no Brasil 

A demência não é uma doença específica, mas um termo guarda-chuva que descreve um declínio geral e progressivo das habilidades mentais, como memória, linguagem e raciocínio, severo o suficiente para interferir na vida diária. A doença de Alzheimer é a sua forma mais comum, representando entre 50% e 70% dos casos. 

No Brasil, o cenário é alarmante. Atualmente, estima-se que pelo menos 1,76 milhão de pessoas com mais de 60 anos vivam com alguma forma de demência. A maioria desses casos, possivelmente mais de 70%, sequer tem um diagnóstico formal, o que impede o acesso a tratamentos que poderiam ajudar a controlar os sintomas. 

A previsão é que o número de casos dispare nos próximos anos. Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, as projeções indicam que podemos chegar a 5,5 milhões de pessoas com demência em 2050. Países como o Brasil, de média e baixa renda, verão um aumento proporcionalmente muito maior, contrastando com nações desenvolvidas onde a melhora no controle de fatores de risco já começa a desacelerar o crescimento da doença. 

Prevenção: uma jornada que começa na juventude 

Por muito tempo, a prevenção da demência foi focada na meia-idade (dos 40 aos 60 anos). No entanto, uma série de estudos, incluindo os apresentados na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer de 2020, demonstrou que as raízes do problema estão em hábitos e comportamentos cultivados na adolescência e no início da vida adulta. 

A lógica é simples, porém crítica: muitos fatores de risco, como a obesidade, o sedentarismo, o tabagismo e a pressão alta, se estabelecem na juventude e persistem por décadas. Por exemplo, 80% dos adolescentes com obesidade continuarão obesos na vida adulta. Tentar reverter esses hábitos décadas depois é notoriamente mais difícil, e o corpo já terá sofrido os efeitos prejudiciais por muito mais tempo. A prevenção, portanto, deve começar cedo e ser um esforço para toda a vida. 

Fatores de risco que podem ser controlados 

A ciência já identificou diversos fatores de risco que, se controlados, podem diminuir drasticamente as chances de desenvolver demência. Eles podem ser divididos em grupos, abrangendo desde a infância até a vida tardia. 

Da infância à vida adulta jovem: 

  • Baixa qualidade educacional: a educação na infância e adolescência é fundamental para construir uma “reserva cognitiva” – a capacidade do cérebro de resistir a danos. Quanto maior a estimulação intelectual, menor o risco de demência no futuro. 
  • Obesidade e sedentarismo: o excesso de peso e a falta de atividade física são fatores de risco importantes. Estudos mostraram que mulheres jovens com obesidade têm 2,5 vezes mais risco de desenvolver demência mais tarde, enquanto para homens o risco é de 2,5 vezes maior. A inatividade física, por si só, está associada a 75% das hospitalizações por demência no Brasil. 
  • Tabagismo: começar a fumar na adolescência é um dos principais fatores de risco. Parar de fumar, no entanto, reduz o risco, fazendo com que ex-fumantes tenham um risco similar ao de quem nunca fumou. 
  • Consumo excessivo de álcool e traumatismo craniano: ambos causam danos diretos às estruturas cerebrais. O traumatismo craniano, comum em esportes de alto impacto ou acidentes, merece atenção especial, e seu risco aumenta com a recorrência. 
  • Saúde cardiovascular: problemas como pressão alta, diabetes tipo 2 e colesterol alto (LDL), que podem ter início na juventude, prejudicam a saúde dos vasos sanguíneos, comprometendo o fluxo de oxigênio e nutrientes para o cérebro. O estudo da AAIC 2020 apontou que adolescentes com esses problemas estão mais propensos a ter pior cognição na vida adulta. 

Durante toda a vida adulta e na velhice: 

  • Isolamento social e depressão: a falta de interação social e problemas de saúde mental, como a depressão, são fatores de risco significativos. A depressão, em particular, pode levar a outros comportamentos de risco, como o sedentarismo e o isolamento, criando um ciclo prejudicial. 
  • Perda auditiva e visual: problemas sensoriais não tratados, como perda de audição e visão, reduzem a estimulação do cérebro e contribuem para o declínio cognitivo. O uso de aparelhos auditivos é um fator de proteção importante. 
  • Poluição do ar: um fator ambiental que ganhou destaque, a exposição crônica a poluentes está associada a alterações patológicas no cérebro já observáveis em adultos jovens. 

Como se proteger: um guia para a vida inteira 

Diante desse cenário, nunca é cedo e nunca é tarde para começar a cuidar da saúde do cérebro. Pequenas mudanças de estilo de vida podem fazer uma enorme diferença: 

  1. Mantenha a mente ativa: valorize a educação e busque aprendizado contínuo. Leia, faça palavras-cruzadas, aprenda um novo idioma ou toque um instrumento. 

  2. Cuide do corpo: pratique atividade física regularmente. Qualquer movimento conta, e a OMS recomenda atividades para adultos como forma de reduzir o risco de declínio cognitivo. 

  3. Alimente-se bem: uma dieta equilibrada, como a mediterrânea (rica em vegetais e pobre em gorduras saturadas), é benéfica para o coração e o cérebro. 

  4. Controle os números: monitore a pressão arterial, o colesterol e a glicemia. Diabetes, hipertensão e colesterol alto devem ser tratados adequadamente. 

  5. Fique conectado: mantenha uma vida social ativa. Encontrar amigos, participar de grupos e evitar o isolamento é essencial para a saúde mental e cognitiva. 

  6. Evite hábitos nocivos: não fume e beba álcool com moderação. Use equipamento de proteção para evitar traumatismos cranianos. 

Prevenir a demência é um investimento contínuo que começa na infância, passa pela juventude e estende-se pela vida adulta. Ao compreendermos que o risco pode ser modificado, ganhamos a capacidade de agir e construir um futuro com mais saúde cerebral para todos. 

Fontes 
Conferência Internacional da Associação de Alzheimer de 2020  
Agência Einstein

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