Canetas emagrecedoras: Riscos, regulamentação e a importância do acompanhamento médico

Isabelle Macedo Cabral

Canetas emagrecedoras: Riscos, regulamentação e a importância do acompanhamento médico

Nos últimos anos, o Brasil testemunhou um aumento expressivo na busca por medicamentos injetáveis para perda de peso, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”. Desenvolvidos originalmente para o tratamento do diabetes tipo 2, medicamentos à base de semaglutida, liraglutida e tirzepatida conquistaram espaço também no manejo da obesidade e, mais recentemente, na busca por emagrecimento estético. 

No entanto, o que deveria ser uma alternativa terapêutica segura e controlada transformou-se em motivo de preocupação para as autoridades sanitárias. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga atualmente 65 mortes suspeitas relacionadas ao uso dessas substâncias no Brasil, registradas entre dezembro de 2018 e dezembro de 2025. Paralelamente, a comercialização ilegal de produtos falsificados e sem registro disparou, colocando em risco milhares de pessoas que buscam soluções rápidas sem orientação profissional. 

A seguir, entenda os riscos envolvidos, as novas regras de controle sanitário e como se proteger de golpes e produtos irregulares. 

O fenômeno das canetas emagrecedoras: eficácia comprovada, mas com alertas 

As canetas emagrecedoras contêm princípios ativos que imitam a ação do hormônio GLP-1, produzido naturalmente pelo intestino. Eles atuam no cérebro reduzindo o apetite, retardam o esvaziamento gástrico e aumentam a sensação de saciedade. Estudos mostram que esses medicamentos podem levar a uma redução média de 5% a 15% do peso corporal, o que explica sua crescente popularidade. 

No Brasil, a Anvisa já aprovou o uso da semaglutida (para diabetes tipo 2 e para redução de risco cardiovascular em pacientes com obesidade) e da tirzepatida (para diabetes e, desde junho de 2025, também para obesidade e sobrepeso com comorbidades). No entanto, especialistas alertam: esses medicamentos não são fórmulas mágicas e seu uso exige rigoroso acompanhamento médico. 

65 mortes sob investigação: o que sabemos até agora 

Dados obtidos pela Agência Pública junto à Anvisa revelam um cenário preocupante. Entre dezembro de 2018 e dezembro de 2025, a agência registrou 2.436 notificações de eventos adversos associados ao uso de agonistas de GLP-1, incluindo semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida. 

Entre as complicações mais graves estão: 

  • Pancreatite: inflamação no pâncreas que pode ser fatal 
  • Astenia: fraqueza intensa e persistente 
  • Experiência de morte iminente: relatada em 71 ocorrências 

A semaglutida, princípio ativo do Ozempic e Wegovy, responde por 69% dos eventos adversos registrados entre 2023 e 2025, enquanto a tirzepatida e a liraglutida representam 15% cada. 

A Anvisa ressalta, no entanto, que as notificações não significam, por si só, que os medicamentos sejam os causadores dos eventos. “Para saber se existe realmente uma relação, é necessária uma avaliação clínica e científica completa”, informou a agência em nota. Ainda assim, os números acendem um alerta para a necessidade de uso criterioso e monitorado. 

Uso off-label: o perigo da busca estética 

Um dos maiores problemas identificados por especialistas é o chamado uso off-label — quando um medicamento é utilizado para uma finalidade diferente da aprovada em bula. Estima-se que 35% das prescrições de análogos de GLP-1 sejam destinadas a fins estéticos, muitas vezes para pessoas sem indicação clínica de obesidade ou diabetes. 

Pesquisas recentes mostram que esse uso indiscriminado atinge principalmente mulheres jovens eutróficas (com peso considerado normal), impulsionado por influenciadores digitais e pelo desejo de atingir padrões estéticos irreais.  

Os riscos documentados do uso off-label incluem: 

  • Reações gastrointestinais graves: náuseas em 42% dos usuários, vômitos em 28% 
  • Pancreatite: atinge 2,3% dos pacientes 
  • Colelitíase (pedra na vesícula): 4,1% dos casos 
  • Perda de massa muscular: observada em 38% dos usuários, comprometendo o metabolismo basal e a força 

Além disso, em pessoas sem sobrepeso, a perda de peso pode ocorrer predominantemente à custa de massa magra e água corporal, resultando em fraqueza, desequilíbrio metabólico e recuperação rápida do peso após a suspensão do medicamento — o chamado efeito rebote. 

Venda ilegal e falsificações: um mercado clandestino em expansão 

A alta demanda criou um mercado paralelo perigoso. Em janeiro de 2026, a Polícia Civil de São Paulo apreendeu cerca de 90 mil ampolas e frascos de medicamentos para emagrecimento em uma farmácia de manipulação clandestina em Santo André. Os produtos estavam armazenados sem identificação de paciente ou prescrição médica, e parte dos insumos estava vencida. 

A Anvisa já publicou resoluções proibindo a fabricação, distribuição e comercialização de diversos produtos irregulares, como T.G. 5, Lipoless e Tirzazep Royal Pharmaceuticals, todos sem registro sanitário no país. A agência alerta que esses produtos não tiveram sua qualidade, eficácia e segurança avaliadas, e seu uso pode expor os consumidores a substâncias tóxicas, contaminação e dosagens incorretas. 

Um estudo internacional analisou produtos de semaglutida comprados em farmácias online irregulares e encontrou falhas em 59% a 63% dos critérios avaliados. A pureza do princípio ativo variava entre 7,7% e 14,37%, muito abaixo dos 99% anunciados, e todas as amostras continham endotoxinas — substâncias tóxicas capazes de provocar reações adversas graves. 

Novas regras da Anvisa: mais controle e segurança 

Diante desse cenário, a Anvisa publicou em 2025 a RDC nº 973, estabelecendo novos critérios para a prescrição e dispensação de medicamentos agonistas de GLP-. As principais mudanças são: 

O que mudou Detalhamento 
Retenção obrigatória da receita Farmácias devem reter uma via da prescrição no ato da compra 
Receita em duas vias Válida por 90 dias, com quantidade para até 30 dias de tratamento por dispensação em casos de uso contínuo  
Registro no SNGPC Todas as movimentações devem ser registradas no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados 
Medicamentos sujeitos às regras Semaglutida, liraglutida, dulaglutida, tirzepatida e lixisenatida 
Receita digital Permitida desde que integrada ao Sistema Nacional de Controle de Receituários (SNCR) e com QR Code verificável 

A Anvisa também proibiu a manipulação de semaglutida no Brasil, por se tratar de um medicamento de origem biotecnológica, cuja segurança e eficácia só são garantidas na versão industrial registrada. Já a tirzepatida pode ser manipulada, mas sob rigoroso controle e cumprimento dos padrões de qualidade. 

Como se proteger: orientações essenciais 

Diante de tantos riscos, especialistas e autoridades recomendam: 

  1. Nunca compre medicamentos sem receita: todos os agonistas de GLP-1 exigem prescrição médica com retenção obrigatória. 
  2. Desconfie de ofertas milagrosas: resultados rápidos e preços muito baixos são sinais de alerta para produtos ilegais. 
  3. Compre apenas em farmácias regulamentadas: verifique se o estabelecimento é autorizado e se o produto possui registro na Anvisa. 
  4. Evite compras em redes sociais: a maioria dos produtos vendidos em perfis pessoais ou grupos é clandestina e sem procedência. 
  5. Consulte sempre um médico: somente um profissional pode avaliar se há real indicação para o uso, definir a dose correta e realizar o acompanhamento necessário. 

Conclusão: o cuidado deve vir em primeiro lugar 

As canetas emagrecedoras representam um avanço importante no tratamento da obesidade e do diabetes, condições que afetam milhões de brasileiros. No entanto, sua popularização descontrolada e o uso irresponsável para fins estéticos têm gerado consequências graves, incluindo mortes suspeitas, reações adversas severas e a proliferação de produtos falsificados. 

A mensagem das autoridades é clara: esses medicamentos não são para quem quer emagrecer rapidamente, e sim para quem precisa tratar uma condição de saúde, sob supervisão médica. A automedicação, a compra ilegal e o uso off-label sem critério representam riscos à saúde que podem ser irreversíveis. 

A Drogasil reforça seu compromisso com a saúde e a informação de qualidade, orientando seus clientes a buscarem sempre o acompanhamento profissional e a adquirirem medicamentos apenas em canais regulamentados. Cuidar da saúde é um ato de responsabilidade — e isso começa com escolhas conscientes. 

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