
Câncer colorretal: o que é, fatores de risco e a importância do rastreamento precoce
Isabelle Macedo Cabral

- O que é o câncer colorretal
- Como o câncer colorretal se desenvolve
- Fatores de risco: o que aumenta as chances de desenvolver a doença
- Fatores de risco não modificáveis:
- Fatores de risco modificáveis (relacionados ao estilo de vida):
- Sintomas: quando o corpo dá sinais
- Prevenção e rastreamento: as armas mais poderosas
- Tratamento: como é feito o manejo
O câncer colorretal já figura como o segundo tipo de tumor mais frequente entre homens e mulheres no Brasil, ficando atrás apenas dos cânceres de próstata (entre homens) e mama (entre mulheres).
A doença vem se consolidando como uma das principais causas de adoecimento e morte no Brasil, aproximando-se das doenças cardiovasculares. Esse cenário reflete o envelhecimento da população, desigualdades regionais e desafios persistentes no acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento oportuno.
Entenda os números, os fatores de risco e por que a colonoscopia salva vidas.
O que é o câncer colorretal
O câncer colorretal é um tumor maligno que se desenvolve no intestino grosso, abrangendo tanto o cólon (parte central e mais extensa do intestino grosso) quanto o reto (porção final, responsável pela eliminação das fezes). Na grande maioria dos casos, cerca de 95% deles, trata-se de um adenocarcinoma, ou seja, um tumor que se origina nas células glandulares que revestem a parede intestinal.
Como o câncer colorretal se desenvolve
O câncer colorretal geralmente não surge de forma abrupta. Na maioria dos casos, ele se desenvolve ao longo de anos a partir de lesões precursoras chamadas pólipos.
Os pólipos são crescimentos anormais de tecido na parede interna do intestino grosso. Inicialmente, são lesões benignas. No entanto, com o passar do tempo, alterações genéticas nas células podem fazer com que alguns tipos de pólipos se transformem em um tumor maligno. O tipo de pólipo com maior potencial de se tornar canceroso é o adenoma, que se forma nas células glandulares produtoras de muco presentes no revestimento intestinal.
Esse processo de transformação de um adenoma em câncer é gradual e silencioso, podendo levar de vários anos a uma década para ocorrer. Quando essa transformação acontece, o câncer resultante é denominado adenocarcinoma, que constitui o tipo mais comum de câncer colorretal.
A grande oportunidade que essa via de desenvolvimento oferece é a prevenção. Se os pólipos forem identificados e removidos durante um exame de rastreamento, como a colonoscopia, antes que se tornem malignos, o câncer é efetivamente prevenido.
Fatores de risco: o que aumenta as chances de desenvolver a doença
Os fatores de risco para o câncer colorretal podem ser divididos entre aqueles que não podemos modificar e aqueles relacionados ao estilo de vida, sobre os quais temos controle.
Fatores de risco não modificáveis:
A idade é o principal fator de risco. Cerca de 90% dos casos são diagnosticados em pessoas com mais de 50 anos, e a idade média ao diagnóstico é de 72 anos. No entanto, tem havido um aumento significativo na incidência entre adultos mais jovens, o que acende um alerta.
O histórico familiar também é relevante. Ter um familiar de primeiro grau (pais, irmãos ou filhos) com câncer colorretal aumenta o risco individual. Esse risco é maior se vários familiares foram afetados ou se o diagnóstico ocorreu em idade jovem.
As síndromes genéticas hereditárias, como a Síndrome de Lynch (câncer colorretal hereditário não polipoide) e a Polipose Adenomatosa Familiar (PAF), estão fortemente associadas ao desenvolvimento precoce da doença. Pessoas com a Síndrome de Lynch têm um risco vitalício de 70% a 80% de desenvolver câncer colorretal, frequentemente antes dos 50 anos.
Doenças inflamatórias intestinais crônicas, como a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn, também aumentam o risco. Esse risco está relacionado à duração e à extensão do cólon afetado pela inflamação.
Fatores de risco modificáveis (relacionados ao estilo de vida):
A alimentação desempenha um papel importante. Dietas ricas em carnes vermelhas e, principalmente, em carnes processadas (como salsicha, linguiça, bacon, presunto) estão diretamente ligadas a um maior risco. Por outro lado, uma dieta pobre em fibras, encontradas em frutas, verduras, legumes e grãos integrais, também é prejudicial.
O sedentarismo e a obesidade são fatores de risco significativos. A falta de atividade física regular contribui para o ganho de peso, e o excesso de gordura corporal promove um estado de inflamação crônica e alterações hormonais que favorecem o crescimento de células tumorais.
O tabagismo é um fator de risco bem estabelecido. As substâncias carcinogênicas presentes no cigarro afetam todo o organismo, incluindo o sistema digestivo, aumentando a probabilidade de desenvolvimento de pólipos. O consumo excessivo e regular de bebidas alcoólicas também eleva as chances de desenvolvimento da doença.
Sintomas: quando o corpo dá sinais
Nas fases iniciais, o câncer colorretal frequentemente se desenvolve de forma silenciosa, sem manifestar sintomas perceptíveis. Com o avanço da doença, entretanto, os sinais clínicos tendem a se tornar mais evidentes.
Os sintomas mais comuns incluem:
Sangramento nas fezes: Este é um dos sinais de alerta mais importantes. O sangue pode ser vermelho-vivo (especialmente em tumores do reto) ou escuro, misturado às fezes. Sangramento retal nunca deve ser ignorado ou atribuído apenas a hemorroidas sem investigação adequada.
Alteração do hábito intestinal: Diarreia persistente, constipação (prisão de ventre) ou a alternância entre ambos, que dura vários dias ou semanas, merecem atenção.
Mudança na consistência das fezes: Fezes mais finas ou estreitas do que o habitual podem indicar a presença de um tumor obstruindo a passagem.
Sensação de evacuação incompleta: A sensação persistente de que o intestino não ficou totalmente vazio depois de evacuar é um sintoma comum, especialmente em tumores do reto.
Dor ou desconforto abdominal: Cólicas, dor abdominal localizada, sensação de inchaço ou gases excessivos podem estar presentes.
Sintomas sistêmicos: Perda de peso inexplicada, fadiga e fraqueza generalizada, muitas vezes resultantes de uma anemia causada por sangramento oculto (invisível a olho nu), podem ser os únicos sintomas iniciais.
Prevenção e rastreamento: as armas mais poderosas
A boa notícia é que o câncer colorretal é um dos tipos de câncer mais preveníveis. As estratégias de prevenção dividem-se em duas frentes principais.
Prevenção primária (redução do risco): Adotar um estilo de vida saudável pode reduzir significativamente o risco. Isso inclui manter uma alimentação rica em fibras (frutas, verduras, legumes e grãos integrais), reduzir o consumo de carnes vermelhas e processadas, praticar atividade física regularmente (pelo menos 150 minutos por semana), manter um peso corporal saudável, não fumar e moderar o consumo de álcool.
Prevenção secundária (rastreamento e diagnóstico precoce): O rastreamento é o processo de realizar exames em pessoas assintomáticas para detectar a doença em estágio inicial ou, melhor ainda, remover lesões precursoras antes que se tornem câncer.
O exame de rastreamento mais completo e eficaz é a colonoscopia. Durante o exame, realizado com o paciente sedado, um médico insere uma câmera flexível pelo ânus para visualizar todo o cólon e o reto. Se forem encontrados pólipos, eles podem ser removidos imediatamente (polipectomia) e enviados para análise.
As diretrizes internacionais recomendam o início do rastreamento para pessoas com risco médio a partir dos 45 anos. Para aqueles com histórico familiar de câncer colorretal ou pólipos em familiar de primeiro grau, o rastreamento é indicado a partir dos 40 anos ou dez anos antes da idade em que o familiar foi diagnosticado, o que ocorrer primeiro.
Tratamento: como é feito o manejo
Uma vez confirmado o câncer, exames de imagem, como tomografia computadorizada (TC) do tórax, abdômen e pelve, são realizados para determinar o estágio da doença, ou seja, avaliar a profundidade da invasão tumoral e se há disseminação para linfonodos ou outros órgãos (metástases).
O tratamento do câncer colorretal depende do estágio da doença e da localização do tumor. A cirurgia para remover o segmento canceroso do intestino e os linfonodos próximos é o principal tratamento curativo para a maioria dos casos.
Em casos selecionados, tratamentos complementares podem ser utilizados. A quimioterapia pode ser indicada após a cirurgia para eliminar células cancerosas remanescentes e reduzir o risco de recorrência, especialmente se o câncer se disseminou para linfonodos. A radioterapia é frequentemente utilizada no tratamento do câncer de reto, podendo ser aplicada antes da cirurgia para reduzir o tumor. Em estágios mais avançados, terapias-alvo e imunoterapia também podem ser opções.
O tratamento é mais eficaz e as chances de cura são muito maiores quando o câncer é diagnosticado precocemente, ainda localizado. Por isso, a mensagem central é clara: previna-se, rastreie-se e, ao menor sinal, procure um médico.
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