Os perigos da automedicação no inverno: um alerta necessário
Camila Rubim

Com a chegada do inverno e a queda das temperaturas, o Brasil vivencia um aumento expressivo nas infecções respiratórias. Dados do Boletim InfoGripe da Fiocruz, divulgados em junho de 2026, mostram que o país já registrou 97.813 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no ano de 2026.
Nesse cenário, um comportamento preocupante volta a ganhar força: a automedicação.
O que é a automedicação e por que ela aumenta no inverno?
A automedicação é o uso de medicamentos por conta própria, sem orientação ou prescrição de um profissional de saúde. Durante o inverno, essa prática se intensifica porque os dias mais frios e os ambientes mais fechados favorecem a transmissão de vírus respiratórios. Muitas pessoas tiram dos armários não apenas casacos e cobertores, mas também medicamentos para gripes e resfriados, acreditando que estão se protegendo.
O problema é que, mesmo tendo livre acesso nas farmácias, esses remédios podem trazer sérios riscos.
Por que a automedicação no inverno é perigosa?
Mascaramento de sintomas e diagnóstico tardio
Um dos principais riscos da automedicação é mascarar sintomas importantes, atrasando o diagnóstico correto. Quando os sintomas são suprimidos temporariamente sem investigar a causa real do problema, o quadro pode se agravar sem que o paciente perceba.
Resistência bacteriana
O uso indiscriminado de antibióticos é um dos maiores problemas. A maioria das infecções respiratórias do inverno tem origem viral e, portanto, não deve ser tratada com antibióticos. O uso incorreto desses medicamentos pode levar à resistência bacteriana, tornando infecções futuras mais difíceis de tratar. A resistência bacteriana é considerada um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade.
Efeitos colaterais graves e intoxicação
Mesmo medicamentos aparentemente inofensivos podem causar sérios danos quando usados sem critério:
- Analgésicos e anti-inflamatórios: O uso indiscriminado pode agravar problemas gástricos, provocar hemorragias e prejudicar pacientes com problemas cardíacos ou renais. O diclofenaco em excesso pode causar problemas renais graves, e a aspirina é contraindicada em casos de suspeita de dengue, pois pode agravar hemorragias.
- Antitérmicos: O paracetamol, em uso diário excessivo, pode causar problemas hepáticos e intoxicação. Pessoas com reação alérgica podem sofrer edemas da glote, impedindo a passagem de ar.
- Descongestionantes nasais: O uso constante pode causar taquicardia, elevação da pressão arterial, dependência e rinite medicamentosa.
- Xaropes para tosse: Alguns, como o ambroxol, são perigosos para menores de 2 anos.
Interações medicamentosas
A automedicação também aumenta o risco de interações entre medicamentos, que podem potencializar ou inibir seus efeitos. Por exemplo, combinar anti-inflamatórios com anticoagulantes aumenta o risco de hemorragias. O uso de antibióticos pode reduzir a eficácia de contraceptivos orais, e a associação de medicamentos com álcool intensifica a toxicidade para o fígado.
Os grupos mais vulneráveis
Crianças
Crianças são particularmente vulneráveis aos riscos da automedicação. Estima-se que 35% dos casos de intoxicação medicamentosa ocorrem em crianças menores de cinco anos. Antitérmicos em doses erradas como paracetamol podem intoxicar o fígado. Xaropes para tosse inadequados são perigosos para menores de 2 anos. Antibióticos “que sobraram” criam resistência bacteriana. Anti-inflamatórios podem causar sangramentos gástricos em crianças.
Idosos
Os idosos são mais sensíveis a reações adversas a remédios por mudanças fisiológicas relacionadas à idade. A automedicação pode ser especialmente prejudicial, aumentando o risco de efeitos colaterais no tratamento de condições crônicas comuns nessa faixa etária, resultando em complicações graves ou piora dos sintomas.
O que fazer em vez de se automedicar?
Diante de sintomas gripais ou de resfriado, as orientações são claras:
- Hidrate-se: A hidratação com oferta de líquidos como água, sucos naturais e chás é fundamental nos quadros respiratórios.
- Higiene nasal: A lavagem nasal com soro fisiológico pode ser feita à vontade e ajuda a desobstruir o nariz.
- Consulte um profissional: A conduta mais segura começa com informação qualificada e passa pela escuta médica ou farmacêutica.
- Não use sobras de tratamentos: Medicamentos de tratamentos anteriores não devem ser reutilizados sem orientação.
- Mantenha a vacinação em dia: A vacinação contra influenza e COVID-19 continua sendo uma estratégia efetiva para reduzir complicações e mortes.
Neste inverno, mais do que nunca, é preciso reafirmar a confiança na ciência e adotar práticas responsáveis. O cuidado coletivo começa com a responsabilidade individual.





