Como proteger sua saúde digestiva durante o tratamento com GLP-1

Camila Rubim

Como proteger sua saúde digestiva durante o tratamento com GLP-1

Você finalmente começou o tratamento com a “caneta emagrecedora“. Os quilos estão diminuindo, a roupa começa a ficar folgada, a autoestima melhora. Mas, junto com a alegria do emagrecimento, vieram também desconfortos que você não esperava: enjoo constante, azia, prisão de ventre, e aquela sensação de estômago cheio o tempo todo. 

Essa experiência é mais comum do que se imagina. 40% a 70% dos pacientes que utilizam agonistas do receptor GLP-1 (como semaglutida e tirzepatida) apresentam efeitos adversos gastrointestinais. Náuseas, vômitos, diarreia, constipação e refluxo são os principais responsáveis pelo abandono do tratamento. 

Mas afinal: por que o sistema digestivo sofre tanto? E, mais importante, o que fazer para minimizar esses efeitos e continuar colhendo os benefícios do tratamento? 

Por que o GLP-1 afeta tanto o estômago e o intestino? 

Os agonistas do receptor GLP-1 são análogos de um hormônio naturalmente produzido pelo intestino em resposta à alimentação. Quando você injeta o medicamento, ele imita esse hormônio, mas de forma muito mais potente e duradoura. O problema é que o GLP-1 atua em várias frentes no sistema digestivo: 

  1. Retardo do esvaziamento gástrico:

     a comida permanece mais tempo no estômago, o que aumenta a sensação de saciedade — mas também causa plenitude, náuseas e refluxo. 

  2. Alteração da motilidade intestinal:

     o trânsito dos alimentos pelo intestino fica mais lento, o que pode levar à constipação. 

  3. Interação com o tronco cerebral:

     o medicamento atua na área do cérebro que controla o reflexo do vômito, o que pode desencadear náuseas. 

Os sintomas gastrointestinais são dose-dependentes — ou seja, são mais intensos no início do tratamento e a cada aumento de dose, e tendem a diminuir conforme o corpo se adapta. Mas, para muitos pacientes, os primeiros meses podem ser bastante desafiadores. 

Efeitos mais comuns e suas frequências 

A náusea é o sintoma mais frequente, afetando de 33% a 44% dos pacientes, seguida pela diarreia, que ocorre em 23% a 31% dos casos. O vômito aparece em 11% a 25% dos usuários, enquanto a constipação atinge de 17% a 23% dos pacientes. Já a dispepsia — que inclui azia e indigestão — é relatada por 9% a 10% dos pacientes em uso dos agonistas GLP-1. 

Esses sintomas geralmente ocorrem nas primeiras 48 horas após a injeção ou após o aumento da dose, e tendem a ser de intensidade leve a moderada. 

O que fazer para aliviar os sintomas digestivos? 

Uma série de estratégias práticas podem minimizar os efeitos colaterais gastrointestinais. A abordagem se divide em três pilares: alimentação, hidratação e medicamentos de suporte. 

  1. Modificações na alimentação

A dieta é a ferramenta mais poderosa para controlar os sintomas digestivos durante o tratamento com GLP-1. 

O que fazer: 

  • Refeições menores e mais frequentes: em vez de três grandes refeições, opte por 5 a 6 pequenas refeições ao longo do dia. Comer devagar e parar ao primeiro sinal de saciedade ajuda a evitar náuseas. 
  • Evitar alimentos gordurosos e fritos: gorduras são mais difíceis de digerir e são os principais gatilhos para vômitos e refluxo. 
  • Reduzir alimentos picantes e bebidas gaseificadas: podem irritar ainda mais o estômago. 
  • Priorizar alimentos leves e nutritivos: frutas, vegetais, proteínas magras (frango, peixe, tofu, leguminosas) e grãos integrais. 
  • Incluir fibras gradualmente: fibras ajudam a combater a constipação, mas o aumento deve ser feito aos poucos para evitar gases e inchaço. 

O que evitar: 

  • Alimentos ricos em açúcar adicionado (refrigerantes, doces, sucos industrializados). 
  • Carboidratos refinados (pão branco, arroz branco, bolachas). 
  • Alimentos processados e fast-food. 
  1. Hidratação adequada

A constipação é agravada pela desidratação. Pacientes devem beber mais de 2 a 3 litros de água por dia. A hidratação também ajuda a reduzir náuseas e tonturas. 

  1. Medicamentos de suporte

Se as medidas alimentares não forem suficientes, o médico pode recomendar: 

  • Para náuseas e vômitos: antieméticos de curta duração, como ondansetrona. 
  • Para dispepsia/azia: bloqueadores H2 ou inibidores de bomba de prótons (omeprazolpantoprazol). 
  • Para constipação: fibras solúveis (psyllium), amaciadores de fezes (docusato de sódio) ou laxativos osmóticos (polietilenoglicol). 

Pacientes submetidos a endoscopia: um cuidado especial 

Um alerta importante para pacientes em uso de GLP-1 que vão realizar procedimentos endoscópicos: o retardo do esvaziamento gástrico aumenta o risco de conteúdo gástrico retido durante o exame. 

Embora o risco de aspiração pulmonar não seja significativamente maior, recomenda-se que: 

  • O médico avalie a necessidade de suspender o medicamento temporariamente antes do procedimento. 
  • Pacientes de alto risco (formulações de ação prolongada, doses altas, comorbidades gastrointestinais) podem se beneficiar de uma dieta líquida por 24 horas antes do exame. 

Quando procurar ajuda médica? 

Embora a maioria dos sintomas seja temporária e manejável, alguns sinais merecem atenção imediata: 

  • Dor abdominal intensa que irradia para as costas — pode indicar pancreatite. 
  • Vômitos persistentes que impedem a hidratação. 
  • Constipação severa que não responde a medidas caseiras. 

Pacientes com sintomas persistentes devem conversar com seu médico sobre a possibilidade de: 

  • Reduzir a dose temporariamente. 
  • Aumentar o intervalo entre as titulações. 
  • Trocar para outro medicamento da mesma classe.  

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