Outubro rosa: o que toda mulher precisa saber sobre o câncer de mama, do diagnóstico à cura

Bianca Azevedo

Outubro rosa: o que toda mulher precisa saber sobre o câncer de mama, do diagnóstico à cura

Estamos no mês em que o mundo inteiro se une para falar sobre o câncer de mama, a doença que mais acomete mulheres em todo o planeta. A campanha Outubro Rosa não é só uma questão de laço cor-de-rosa na lapela. É um chamado à consciência, ao autoconhecimento e, acima de tudo, à detecção precoce — que é o que salva vidas. 

No Brasil, o câncer de mama é o tipo mais incidente entre as mulheres, excluindo o de pele não melanoma, e a principal causa de morte por câncer na população feminina.  

Mas aqui vai a informação que precisa ser repetida à exaustão: o câncer de mama tem altas chances de cura. Se diagnosticado em estágios iniciais, as taxas de cura superam os 95%. É por isso que este mês existe. É por isso que esta matéria existe. 

Neste guia, vamos esclarecer as principais dúvidas sobre a doença: o que é, quais os fatores de risco, como se prevenir, quais os sintomas, como é feito o diagnóstico e quais são os tratamentos disponíveis. 

O que é o câncer de mama 

O câncer de mama não é uma doença única. Ele envolve diversos tipos de tumores que acometem as mamas. De forma geral, é um crescimento descontrolado de células que adquirem características anormais. E não afeta só mulheres: homens também podem desenvolver a doença. 

Quando ocorrem mutações no material genético dessas células, elas podem adquirir a capacidade de se dividirem de forma desordenada. Além disso, podem evitar a morte celular, que faz parte do ciclo de vida de qualquer célula do organismo. Com isso, podem invadir tecidos próximos e originar tumores. 

Fatores de risco 

Não há uma única causa que leva ao aparecimento do câncer de mama. Mas existem alguns fatores que podem contribuir para o desenvolvimento da doença: 

  • Histórico familiar de câncer, principalmente de ovário e de mama 
  • Alteração genética, especialmente nos genes BRCA1 e BRCA2 
  • Hábitos de vida não saudáveis, como fumar, ingerir bebidas alcoólicas, sedentarismo, sobrepeso e obesidade 

É importante destacar que, por mais que a mulher apresente um ou mais fatores de risco, isso não significa que ela irá desenvolver a doença. 

Como prevenir o câncer de mama 

Basicamente, a prevenção passa por adotar bons hábitos de vida e investir em atitudes saudáveis. Entre elas: 

  • Ter uma boa alimentação, reduzindo o consumo de carne vermelha, eliminando os embutidos e dando preferência a folhas, legumes, carnes brancas, frutas e grãos integrais 
  • Evitar sobrepeso e obesidade 
  • Não fumar e evitar o tabagismo passivo 
  • Evitar bebidas alcoólicas 
  • Praticar atividade física 
  • Antes de realizar terapia de reposição hormonal, consultar o médico para avaliar se a paciente pode usar hormônios. Se sim, não prolongar o uso por mais de cinco anos 
  • Amamentação dos filhos 

De acordo com Fernanda Perez Magnani Leite, cirurgiã oncológica do A.C. Camargo Cancer Center, a cada doze meses que a mulher amamenta, diminui-se o risco de ter câncer de mama em torno de 4,3%. Isso ocorre principalmente por dois fatores: “durante o processo de aleitamento materno, a mulher tem menos ciclos menstruais. Logo, ela fica menos exposta ao estrogênio, além de produzir menos desse hormônio”, esclarece a especialista. 

Sintomas de tumores na mama 

Aqui vale um alerta: em muitos casos, principalmente em estágios iniciais, pode não haver nenhum sintoma. Mas, mesmo assim, é importante ficar atenta a mudanças na mama — seja na cor, no tamanho ou na espessura da pele. 

Os principais sintomas do câncer de mama são: 

  • Nódulo (caroço) indolor: geralmente está presente em 90% dos casos 
  • Caroço nas axilas 
  • Inchaço em parte da mama 
  • Dor no mamilo ou inversão do mamilo 
  • Saída de secreção pelo mamilo 
  • Irregularidades na pele da mama: covinhas ou franzidos, que fazem a pele se assemelhar a uma casca de laranja 
  • Alterações no bico da mama 

Esses são sinais de alerta, mas não necessariamente significam câncer. Por isso, ao notar qualquer alteração na mama, procure ajuda médica para uma avaliação completa. 

O autoexame é eficaz? 

Durante muitos anos, o autoexame foi apresentado como a principal estratégia para identificar tumores de mama. Mas estudos demonstram que essa atitude, isoladamente, não reduzia a mortalidade por câncer de mama. Isso porque, quando o nódulo é palpável, geralmente já está mais avançado, o que pode diminuir as chances de cura. 

O ideal, hoje, é que as mulheres estejam conscientes de suas mamas, observando-as e atentas aos sinais, mas que não deixem de realizar de forma rotineira os exames de detecção do tumor. 

Como é feito o diagnóstico 

Para confirmar o diagnóstico, o médico solicita alguns exames, entre eles a mamografia, a ultrassonografia, a ressonância magnética e as biópsias. 

A mamografia é recomendada pelo Ministério da Saúde para mulheres acima dos 50 anos, pelo menos a cada dois anos. É considerada um dos principais e mais importantes exames para identificação de tumores ainda no estágio inicial. 

A confirmação se o nódulo é câncer ou não, no entanto, somente é feita a partir de uma biópsia, que é a retirada de um fragmento da lesão por punção ou cirurgia. Depois disso, essa amostra é analisada em laboratório para a definição do diagnóstico. 

Mamografia x ultrassonografia 

De acordo com a ginecologista Naira Scartezzini, a ultrassonografia é indicada para pacientes mais jovens. “O exame tem o potencial de buscar nódulos ou lesões císticas”, explica. 

Já a mamografia é como se fosse um raio-X e busca, além de nódulos, calcificações. 

Em alguns casos, pode ser necessário realizar a ressonância magnética. “É mais indicado em pacientes que possuem histórico de câncer de mama. Além disso, a ressonância pode ser solicitada quando houver uma lesão que não foi bem esclarecida na mamografia ou ultrassonografia”, explica a médica. 

Como funcionam as biópsias 

“É muito importante entender que a biópsia faz o diagnóstico e fornece várias informações. É como se trouxesse o nome e sobrenome do tumor”, explica Wesley Pereira Andrade, oncologista e mastologista. 

Existem três tipos de biópsia por agulha: 

PAAF: por meio de uma agulha fina, é feita uma incisão na pele para remover células do nódulo suspeito. 

Core biópsia: utiliza uma agulha mais grossa para remover uma amostra de tecido. É uma das técnicas mais comuns para confirmação de diagnóstico, feita com anestesia local. 

Mamotomia: indicada quando não há um nódulo evidente, mas há alguma alteração nos exames de imagem. O médico radiologista insere um clipe de titânio para demarcar o local onde a amostra foi retirada. 

Em alguns casos, a biópsia cirúrgica é uma opção, quando não for possível realizar os outros tipos de punção. Neste tipo, o médico retira uma quantidade maior de tecido, podendo remover parte do nódulo ou ele todo. Por ser um procedimento de maior porte, anestesias local ou geral são indicadas. 

O que é a Imunoistoquímica? 

Além do diagnóstico anatomopatológico inicial feito a partir da biópsia, o médico patologista poderá realizar outros exames para avaliar melhor as características do tumor. Um deles é a pesquisa imunoistoquímica de receptores hormonais (estrógeno e progesterona), HER2 e do índice de proliferação celular (Ki-67). 

Os nomes podem parecer complicados, mas, de forma mais simples, esses hormônios estão ligados ao crescimento do tumor. A identificação deles pode auxiliar na definição do tipo de tratamento e medicamento que serão utilizados. Por exemplo, cerca de 20% a 25% dos cânceres de mama são positivos para HER2 e requerem um fármaco específico. 

Tipos de câncer de mama 

Com o avanço da ciência e do entendimento sobre o comportamento dos cânceres de mama, é possível ter um tratamento mais personalizado. Por isso, é importante entender algumas variáveis. 

Disseminação e crescimento do tumor: in situ (o tumor não se disseminou para fora da região onde está) ou invasivo/infiltrante (há disseminação do tumor, invadindo tecidos ao redor). 

Graus: durante a análise da amostra, o patologista atribui uma nota para o tumor, que pode ser G1, G2 ou G3. O G1 tem crescimento mais lento, e o G3, crescimento mais rápido. Isso ajuda a definir a evolução da doença ao longo dos anos. 

Morfologia: há mais de 48 denominações em relação ao tipo de célula e sua forma de organização no tumor. Alguns exemplos são carcinoma ductal in situ, carcinoma papilífero, carcinoma ductal invasivo, carcinoma lobular invasivo, carcinoma tubular invasivo, carcinoma mucinoso invasivo, carcinoma metaplásico invasivo e carcinoma invasivo com fatores medulares. 

Molecular: os cânceres de mama podem ser classificados por meio das alterações que existem nos genes que regulam o funcionamento das células. Por isso, podem ser classificados como Luminal A ou B, Luminal B/HER2, Superexpressor de HER2 ou Triplo Negativo. 

Estadiamento do câncer de mama 

Além dessas características, o câncer de mama pode ser identificado de acordo com a sua extensão e disseminação no corpo. Por isso, é feito o estadiamento, que é a avaliação se a doença está localizada, localmente avançada ou metastática. Para isso, o médico utiliza uma escala de 0 a 4 em algarismos romanos. 

Estágio 0: o tumor está apenas localizado nos ductos ou lóbulos da mama e não se espalhou para o tecido de mama ao redor. 

Estágio IA: o tumor tem até 2 cm e não se espalhou para os linfonodos. 

Estágio IB: pode ter tamanho de até 2 cm, mas se espalhou para 1 linfonodo de forma bem pequena. 

Estágio IIA: com até 2 cm, o tumor se disseminou para os linfonodos axilares. Ou pode ser um tumor entre 2 cm e 5 cm que não se disseminou para os linfonodos axilares. 

Estágio IIB: entre 2 cm e 5 cm, o tumor se disseminou para um a três linfonodos axilares. Ou o tumor é maior que 5 cm, mas não disseminou para os linfonodos axilares. 

Estágio IIIA: o tumor pode ser de qualquer tamanho com até 5 cm e disseminou para quatro a nove linfonodos axilares, mas não para outras partes do corpo. Ou pode ser um tumor maior que 5 cm que disseminou para um a três linfonodos axilares. 

Estágio IIIB: com inchaço ou ulceração da mama, o tumor disseminou para a parede torácica. Pode ou não ter disseminado para os linfonodos debaixo do braço, mas não disseminou para outras partes do corpo. 

Estágio IIIC: o tumor pode ter qualquer tamanho, mas disseminou para 10 ou mais linfonodos debaixo do braço ou outro aglomerado de linfonodos. Contudo, o câncer não disseminou para partes distantes do corpo. 

Estágio IV (metastático): o tumor pode ter qualquer tamanho, mas a característica distintiva é que ele disseminou para outros órgãos (ossos, pulmões, cérebro ou fígado). 

Tratamento do câncer de mama 

O tratamento é individualizado de acordo com as características da paciente e do tipo, tamanho e extensão do tumor. 

O tratamento pode focar em retirar o câncer, reduzir o crescimento do tumor, reduzir o risco de disseminação para outras partes do corpo, encolher o tumor para melhorar a operabilidade, aliviar os sintomas e melhorar efeitos colaterais. 

Já o plano de tratamento pode incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia, terapia hormonal, terapia direcionada e cuidado paliativo. 

“O tratamento é fundamentalmente cirúrgico, com intuito curativo. Mas pode ser complementado com radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia alvo e também imunoterapia”, explica Wesley. “Esses tratamentos são chamados de adjuvantes, ou seja, complementares à cirurgia para aumentar as chances de cura.” 

Existe cura para o câncer de mama? 

Sim. O câncer de mama pode ser curado. Quanto mais cedo o diagnóstico, melhor. Se o tumor tiver menos de 1 centímetro, há mais de 95% de chance de cura. De acordo com estudo do A.C.Camargo Cancer Center, caso o câncer esteja no estágio II e III, respectivamente, as chances de cura são de quase 93% e 76%. 

Tratamentos 

  • Cirurgia:

Geralmente, a cirurgia é um dos primeiros tratamentos a serem realizados em quem tem câncer de mama. Ela pode ser realizada de forma parcial ou total. 

Ressecção segmentar ou quadrantectomia: remove o tumor, mas também uma pequena margem livre de câncer ao redor dele. 

Mastectomia: remove toda a mama, podendo incluir a aréola e o mamilo. Pode ser feita ou não a cirurgia reparadora, com a colocação de prótese de silicone. 

O mastologista explica que a quadrantectomia é, hoje, o melhor tratamento para as mulheres com câncer de mama. “Ambas as cirurgias têm equivalência em relação às taxas de cura, mas a quadrantectomia, quando comparada com a mastectomia, tem muito menos efeitos colaterais e maior grau de satisfação das pacientes.” 

  • Cirurgia da axila:

A cirurgia também avalia a região da axila, em especial os linfonodos (gânglios) próximos. Isso ajuda a detectar células tumorais que poderiam se espalhar pelo corpo. 

Pesquisa de linfonodo sentinela (LNS): um tipo de exame realizado durante a cirurgia para identificar linfonodos sentinelas. O médico patologista injeta um corante ou um marcador radioativo na área. O líquido leva até os linfonodos sentinelas. Se houver mudança de cor ou desprendimento de radiação, é possível identificá-los. 

Com a confirmação da presença de câncer, o médico pode solicitar a retirada dos linfonodos na axila para reduzir o risco de disseminação. 

  • Radioterapia:

A radioterapia utiliza radiações ionizantes, que destroem ou inibem o crescimento de células que formam os tumores. Além disso, ajuda a controlar sangramentos e dores, além de reduzir o tamanho de tumores que estejam comprimindo outros órgãos. 

No contexto do câncer de mama, a radioterapia é frequentemente utilizada após uma quadrantectomia para ajudar a diminuir o risco de reaparecimento da doença. Atualmente, as taxas de recidiva são inferiores a 5% nos 10 anos seguintes ao tratamento. 

  • Quimioterapia:

A quimioterapia utiliza medicamentos para combater o câncer. De acordo com o Inca, esses medicamentos se misturam com o sangue e vão destruindo as células que formam o tumor. Além disso, ajudam a evitar que o câncer se espalhe. 

  • Hormonioterapia:

Nos casos em que os tumores de mama crescem estimulados por hormônios femininos, a terapia hormonal, que bloqueia a produção ou ação desses hormônios, é indicada no tratamento. Isso ajuda a evitar a recorrência do tumor e aumenta as chances de sucesso do tratamento. 

  • Imunoterapia:

De acordo com o oncologista, este tipo de tratamento funciona através do hiper estímulo do sistema imunológico para identificar as células cancerígenas e agir. Enquanto a imunoterapia age estimulando as células de defesa, a quimioterapia age diretamente matando as células. “Em alguns casos de câncer de mama utilizamos a imunoterapia, principalmente em tumores do subtipo triplo negativo”, explica Wesley. 

  • Terapia direcionada:

Neste tipo de tratamento, o médico patologista identifica os genes específicos ou proteínas presentes no câncer e, assim, ajuda a equipe a identificar o tratamento medicamentoso ideal para aquele tipo de tumor. 

Perguntas frequentes sobre câncer de mama 

  1. O câncer de mama tem cura?
    Sim. Quando diagnosticado em estágios iniciais, as taxas de cura superam 95%. No estágio II, as chances são de quase 93%; no estágio III, de 76%.
  2. Qual a diferença entre mamografia e ultrassonografia?
    A mamografia é como um raio-X e busca nódulos e calcificações. A ultrassonografia é mais indicada para pacientes jovens e busca nódulos ou lesões císticas.
  3. Quem tem silicone pode fazer mamografia?
    Sim, mas é preciso avisar o técnico radiologista para posicionar a mama corretamente. Em alguns casos, podem ser necessários exames complementares.
  4. O autoexame substitui a mamografia?
    Não. O autoexame isoladamente não reduz a mortalidade. O ideal é que a mulher conheça suas mamas, mas não deixe de fazer os exames de rotina.
  5. A partir de que idade devo fazer mamografia?
    O Ministério da Saúde recomenda a mamografia para mulheres acima dos 50 anos, pelo menos a cada dois anos. Mulheres com histórico familiar podem precisar começar mais cedo.
  6. Quais são os principais sintomas?
    Nódulo indolor (presente em 90% dos casos), caroço nas axilas, inchaço, dor ou inversão do mamilo, secreção, pele com aspecto de casca de laranja.
  7. Amamentar previne o câncer de mama?
    Sim. A cada 12 meses de amamentação, o risco diminui cerca de 4,3%, porque a mulher tem menos ciclos menstruais e fica menos exposta ao estrogênio.
  8. O que é a quadrantectomia?
    É a cirurgia que remove o tumor e uma pequena margem de tecido ao redor. Tem menos efeitos colaterais que a mastectomia e maior satisfação das pacientes.
  9. A reconstrução da mama é garantida por lei?
    Sim. A Lei 9.797 de 1999 garante a reconstrução a toda mulher que teve a mama retirada. Se houver possibilidade, a reconstrução deve ser feita no mesmo dia da cirurgia.
  10. Onde encontrar apoio psicológico e jurídico?
    Associações como a Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama reúnem mais de 70 ONGs que oferecem suporte psicológico, fisioterápico, nutricional e jurídico.

Fontes
 

  • Wesley Pereira Andrade, oncologista, mestre e doutor em Oncologia, além de mastologista e cirurgião oncologista.  

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