TDAH: sintomas além da falta de foco

Bianca Azevedo

TDAH: sintomas além da falta de foco

Vivemos em um mundo que exige atenção constante, e não é raro ouvirmos alguém dizer, de forma despretensiosa, “hoje estou com meu TDAH”. Essa banalização, no entanto, esconde uma realidade desafiadora para milhões de pessoas que convivem diariamente com o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade. Longe de ser um mero traço de personalidade ou um episódio de distração, o TDAH é uma condição neurobiológica crônica, com causas genéticas, que afeta de forma significativa a vida de quem a possui. 

O que é o TDAH? 

Imagine ter uma mente que capta todos os estímulos ao redor ao mesmo tempo, como se vários canais de rádio estivessem ligados simultaneamente. Essa é uma das experiências mais comuns para quem tem TDAH. O transtorno é caracterizado por um padrão persistente de desatenção, hiperatividade e impulsividade, que interfere no funcionamento diário e no desenvolvimento da pessoa. 

É importante compreender que o TDAH se manifesta de maneiras diferentes em cada indivíduo. Existem três subtipos principais: 

  • Predominantemente desatento: a pessoa tem grande dificuldade em manter o foco, organizar tarefas e seguir instruções. 
  • Predominantemente hiperativo/impulsivo: a inquietação física e a dificuldade em controlar impulsos são os traços mais marcantes. 
  • Combinado (misto): apresenta uma combinação significativa de sintomas de desatenção e hiperatividade-impulsividade. 

Essa variação explica por que o TDAH pode se apresentar de forma tão distinta em cada pessoa, mudando também ao longo das diferentes fases da vida. 

Sintomas da infância à vida adulta 

Acredita-se que o TDAH afete de 3% a 5% das crianças em idade escolar, sendo mais frequentemente diagnosticado em meninos. Na infância, o quadro costuma ser mais evidente através da hiperatividade. A criança tende a preferir brincadeiras muito dinâmicas, apresenta inquietação excessiva, dificuldade para esperar sua vez e pode falar em excesso. 

Para a psicóloga Rosangela Sampaio, a hiperatividade se manifesta em crianças que são visivelmente mais agitadas e inquietas do que seus pares. Já os sintomas de desatenção podem passar despercebidos, levando a um subdiagnóstico em meninas, que muitas vezes são rotuladas apenas como “sonhadoras” ou “distraídas”. 

Na vida adulta, o cenário muda. Os sintomas de hiperatividade física tendem a se tornar mais brandos, transformando-se em uma sensação interna de inquietação. No entanto, os desafios da desatenção se tornam mais proeminentes e podem ter consequências graves em áreas como carreira, relacionamentos e finanças. 

Sintomas comuns em adultos incluem: 

  • Dificuldade persistente em manter o foco em tarefas e conversas. 
  • Desorganização crônica e dificuldade em planejar e definir prioridades. 
  • Esquecimentos frequentes de compromissos e objetos. 
  • Sensação constante de estar sobrecarregado. 
  • Instabilidade emocional, com alterações de humor e baixa tolerância à frustração. 
  • Baixa autoestima, muitas vezes resultante de anos de críticas por “falta de esforço”. 

O psiquiatra Ariel Lipman ressalta que os adultos com TDAH também têm maior risco de desenvolver problemas com álcool, drogas e outros transtornos mentais, como ansiedade e depressão, muitas vezes como uma tentativa de lidar com os sintomas não tratados. 

Nem toda desatenção é TDAH: o que diferencia o transtorno? 

É aqui que reside um dos maiores equívocos sobre o TDAH. Todos nós, em algum momento, podemos estar desatentos, desorganizados ou inquietos. A diferença crucial, segundo o Dr. Ariel Lipman, está na intensidade e no prejuízo que esses sintomas causam. 

“Para ser considerado um transtorno, o quadro precisa ser grave e duradouro o suficiente para gerar disfuncionalidade”, explica. Ou seja, não se trata de uma fase ou de um dia ruim. O TDAH causa um sofrimento clínico significativo, impactando negativamente a vida social, acadêmica ou profissional da pessoa de forma consistente. 

Por isso, é fundamental ter cautela com o que os especialistas chamam de “subdiagnóstico” ou autodiagnóstico. Apenas um profissional de saúde mental, como um psiquiatra ou psicólogo, pode fazer uma avaliação aprofundada e descartar outras condições que podem ter sintomas similares, como ansiedade, depressão ou mesmo um simples esgotamento. 

O caminho para o diagnóstico e as opções de tratamento 

O diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico, feito por um psiquiatra, que pode contar com a ajuda de um neuropsicólogo para a realização de testes que avaliam a atenção e funções executivas. Não há cura para o TDAH, mas a notícia positiva é que existem tratamentos muito eficazes que permitem à pessoa levar uma vida plena e produtiva. O tratamento geralmente combina diferentes abordagens: 

  1. Psicoterapia

A terapia com um psicólogo é uma ferramenta poderosa. Ela ajuda a desenvolver habilidades práticas de organização, gestão de tempo e controle de impulsos. Além disso, oferece um espaço seguro para trabalhar a autoestima, lidar com as emoções e construir estratégias de enfrentamento para os desafios diários. 

  1. Intervenções educacionais e de suporte

Para crianças e adolescentes, o trabalho em parceria com a escola é vital. Adaptações como salas com menos estímulos, tempo adicional para provas e tutores podem fazer uma grande diferença no sucesso acadêmico e na autoimagem do aluno. 

  1. Medicação

Em muitos casos, o médico psiquiatra pode prescrever medicamentos, geralmente psicoestimulantes, como o metilfenidato ou a lisdexanfetamina. Esses medicamentos atuam diretamente nos neurotransmissores do cérebro, ajudando a melhorar o foco e o controle dos impulsos. O uso de qualquer medicação deve ser feito exclusivamente sob prescrição e acompanhamento médico rigoroso. 

  1. Rotina e exercícios físicos

Estabelecer rotinas previsíveis e ambientes estruturados é um pilar no manejo do TDAH. Horários fixos para as atividades diárias reduzem o estresse e a ansiedade, que são gatilhos para os sintomas. 

Além disso, os benefícios dos exercícios físicos são notáveis. Um estudo da Universidade de Montreal mostrou que crianças, especialmente meninas, que praticam esportes regularmente apresentam uma melhora significativa nos sintomas de TDAH. A atividade física não só melhora a concentração como também promove um bem-estar psicológico geral. 

Estratégias para o dia a dia: como melhorar a concentração 

Além do tratamento formal, algumas estratégias práticas podem auxiliar na concentração e organização: 

  • Organize seu espaço: um ambiente de trabalho ou estudo limpo e ordenado ajuda a mente a focar no que é importante. 
  • Use listas: agendas, aplicativos ou post-its são aliados poderosos para visualizar tarefas e compromissos. 
  • Estabeleça prioridades: defina o que é mais urgente e importante para evitar a sensação de sobrecarga. 
  • Elimine distrações: silencie as notificações do celular e bloqueie sites de redes sociais durante os períodos de foco. 
  • Faça pausas: técnicas como o Pomodoro (25 minutos de trabalho, 5 de descanso) ajudam a manter a produtividade sem esgotamento. 
  • Estimule seu cérebro: jogos como sudoku e palavras cruzadas são um ótimo exercício mental. 

Um futuro com mais compreensão 

Aumentar o conhecimento sobre o TDAH é o primeiro passo para substituir o julgamento e a banalização por empatia e suporte adequado. Compreender que se trata de uma condição neurobiológica, e não uma falha de caráter, é fundamental para que as pessoas que convivem com o transtorno possam buscar ajuda, desenvolver seu potencial e viver com mais qualidade de vida. Se você se identifica com os sintomas descritos e eles causam sofrimento em sua vida, procure um profissional de saúde mental. O diagnóstico e o tratamento corretos podem transformar sua jornada. 

Fontes 
Rosangela Sampaio, psicóloga e apresentadora do Programa Mulheres em Flow. 
Dr. Ariel Lipman, médico psiquiatra e diretor da SIG Residência Terapêutica. 
Referências 
Instituto NeuroSaber 
Agência Einstein 
Associação Brasileira de Déficit de Atenção 

Mais sobre Outros Transtorno Mentais