Corticoide: O que é e quando usar

Isabelle Macedo Cabral

Corticoide: O que é e quando usar

Os corticosteroides, conhecidos popularmente como corticoides, estão entre os medicamentos mais importantes e versáteis da medicina moderna. Desde sua descoberta na década de 1950, eles revolucionaram o tratamento de doenças inflamatórias e autoimunes. No entanto, seu poder terapêutico está intrinsecamente ligado a um perfil de efeitos adversos que demanda uso criterioso, monitoramento rigoroso e, acima de tudo, a absoluta proibição da automedicação. 

Mecanismo de ação 

Os corticoides são versões sintéticas do hormônio cortisol, produzido naturalmente pelas glândulas suprarrenais, e atuam como moduladores potentes do sistema imunológico e do processo inflamatório. Eles inibem a produção de substâncias-chave que desencadeiam a inflamação, como as prostaglandinas e as citocinas. É essa ação que os torna eficazes em condições tão diversas quanto uma crise de asma, um surto de artrite reumatoide ou uma reação alérgica grave. 

Vias de administração 

A via de administração é crucial para determinar o perfil de risco: 

  1. Uso Tópico (cremes, pomadas): Concentra o efeito na pele. Indicado para dermatites, psoríase e eczemas. Os riscos de efeitos sistêmicos são baixos, mas o uso prolongado e em grandes áreas pode levar ao afinamento da pele (atrofia cutânea) e, em casos raros, à absorção significativa. 
  2. Uso Inalatório (sprays, ‘bombinhas’): Ação direta nas vias aéreas. Base do tratamento de controle da asma e da DPOC. A dose que atinge a circulação geral é mínima, mas o uso sem higiene bucal adequada pode causar candidíase oral (sapinho). 
  3. Uso Sistêmico (oral ou injetável): É aqui que os benefícios e os riscos são mais pronunciados. A medicação atinge todo o organismo. É reservado para doenças graves ou crises agudas que não respondem a outras terapias. 

Indicações  

O uso sistêmico está bem estabelecido para: 

  • Doenças Autoimunes: Lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide, vasculites. 
  • Doenças Alérgicas Graves: Anafilaxia, angioedema, asma grave não controlada. 
  • Processos Inflamatórios Intensos: Alguns tipos de meningite, exacerbações graves de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), crise de doença inflamatória intestinal. 
  • Prevenção de Rejeição em Transplantes: Em combinação com outros imunossupressores. 

Efeitos adversos 

O uso prolongado com doses elevadas de corticoides sistêmicos está associado a uma série de efeitos colaterais, muitos dos quais são, na verdade, uma exacerbação das ações fisiológicas do cortisol: 

  • Metabólicos: Aumento do apetite, ganho de peso, redistribuição de gordura (face arredondada – “cara de lua”, acúmulo na região cervical – “giba de búfalo”), diabetes induzido por esteroides, dislipidemia. 
  • Musculoesqueléticos: Perda de massa muscular (miopatia), osteoporose e risco aumentado de fraturas, necrose avascular (morte do tecido ósseo) do fêmur. 
  • Imunológicos: Maior susceptibilidade a infecções, devido à supressão da resposta imunológica. 
  • Cutâneos: Estrias violáceas, fragilidade capilar, cicatrização prejudicada. 
  • Neuropsiquiátricos: Insônia, alterações de humor, euforia e, em casos mais graves, psicose. 

O perigo da automedicação e da suspensão abrupta 

São dois erros gravíssimos e potencialmente fatais: 

  1. Automedicação: Usar sobras de tratamentos antigos para uma nova dor ou inflamação é extremamente perigoso. Pode mascarar uma infecção bacteriana grave (como uma apendicite), agravar uma úlcera gástrica ou desencadear efeitos adversos severos. 
  2. Suspensão Abrupta: O uso prolongado suprime a produção natural de cortisol pelas suprarrenais. Se o medicamento for interrompido de uma vez, o corpo fica sem seu hormônio essencial para o estresse, podendo levar à Insuficiência Adrenal Aguda, uma emergência médica caracterizada por queda grave de pressão, vômitos, desidratação e choque. Todo tratamento com corticoide sistêmico deve ter sua redução (desmame) planejada e supervisionada por um médico. 

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