Qual o verdadeiro custo de comer bem?

fcsilveira

Qual o verdadeiro custo de comer bem?

Ir ao mercado costuma ser um momento de análise de preços para tentar levar o que sai mais em conta para a realidade de cada lar.  

E quando a ida às compras envolve a pesquisa por alimentos mais saudáveis para a rotina, a função pode ser mais complexa para muitas pessoas devido ao preço dos itens da dieta.  

Mas será que alimentos saudáveis tem um custo significativamente mais alto do que outros não tão saudáveis assim?  

Foi justamente essa comparação que pesquisadores fizeram ao analisar a alimentação atual da população brasileira e uma dieta baseada nas recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira. 

O custo depende do que compõe a dieta 

Na comparação realizada pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), a dieta baseada no Guia Alimentar custou R$ 4,90 por 1.000 kcal. 

Já a alimentação atual da população brasileira apresentou custo médio de R$ 5,60 por 1.000 kcal. A diferença foi de aproximadamente 12%, com menor custo para a dieta baseada no Guia. 

Ou seja, escolher alimentos por serem mais práticos e hiperpalatáveis pode sair mais caro do que adquirir alimentos naturais, por exemplo. 

Isso porque a proposta do Guia não é trocar um alimento ultraprocessado por outro que contenha uma alegação de ser mais saudável no rótulo, e sim desembalar menos e descascar mais.  

Dessa forma, o resultado mostra que uma alimentação considerada mais adequada não necessariamente representa um gasto maior, mas tem melhores escolhas. 

Quais alimentos mais pesam nessa conta? 

A composição de uma alimentação diária ajuda a explicar essa diferença. 

De acordo com a POF, alimentos ultraprocessados e carne vermelha foram os que mais contribuíram para o custo da alimentação atual. Já frutas e vegetais apresentaram uma participação menor no custo montante. 

E reconhecer um alimento ultraprocessado é simples: são produtos que passam por etapas de processamento e, geralmente, contém cinco ou mais ingredientes raramente usados nas cozinhas caseiras, com nomes complexos ou desconhecidos. 

Alguns exemplos de alimentos ultraprocessados são: 

  • refrigerantes e sucos de caixinha 
  • biscoitos e salgadinhos de pacote 
  • laticínios variados, como iogurte saborizado e requeijão 
  • embutidos, como presunto, peito de peru e salsicha 
  • pratos congelados prontos para cozinhar, assar ou fritar, como petiscos de frango empanado 

Esse contexto ajuda a mudar a forma de olhar para a relação entre alimentação e preço, visto que o alimento individual é apenas uma parte da conta. O conjunto das escolhas também importa. 

O que uma mudança na alimentação pode representar? 

Pesquisadores brasileiros também avaliaram o impacto que mudanças na alimentação poderiam ter sobre a saúde da população. 

Em um artigo publicado em 2023, baseado em modificações culturalmente adequadas da dieta, pequenas mudanças poderiam estar associadas à prevenção de 12.750 a 57.341 mortes por ano no Brasil. 

O mesmo estudo estimou impactos sobre custos relacionados a doenças e perdas de produtividade. 

Esses números são projeções de um modelo e não significam que uma mudança específica na alimentação produzirá o mesmo resultado para cada pessoa. 

Isto é, o custo de uma dieta depende da composição e de diferentes condições que influenciam as escolhas alimentares. A relação entre alimentação e dinheiro não é simplesmente uma escolha entre “saudável” e “caro”, mas entender o contexto individual para falar sobre acesso a uma alimentação adequada. 

Referências: 

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018: Análise do Consumo Alimentar Pessoal no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2020. Disponível em: https://ibge.gov.br. Acesso em: 19 ago. 2026.  

Differences in the Cost and Environmental Impact Between the Current Diet in Brazil and Healthy and Sustainable Diets: A Modeling Study.Nutrition Journal. 2024. Caldeira TCM, Vandevijvere S, Swinburn B, Mackay S, Claro RM. 

Consumption of Ultra-Processed Foods in Brazil: Distribution and Temporal Evolution 2008-2018.Revista De Saude Publica. 2022. Louzada MLDC, Cruz GLD, Silva KAAN, et al. 

Avoidable Diet-Related Deaths and Cost-of-Illness With Culturally Optimized Modifications in Diet: The Case of Brazil. PloS One. 2023. Verly E, Machado ÍE, Meireles AL, Nilson EAF. 

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