Entenda por que o cabelo pode cair durante o tratamento com GLP-1

Camila Rubim

Entenda por que o cabelo pode cair durante o tratamento com GLP-1

Você finalmente começou o tratamento com as “canetas emagrecedoras”. Os quilos estão diminuindo, a roupa começa a ficar folgada, a autoestima melhora. Mas, de repente, algo inesperado acontece: ao pentear o cabelo, você nota fios demais caindo 

Essa cena tem se repetido em consultórios dermatológicos e endocrinológicos ao redor do mundo. O que antes era um efeito colateral pouco comentado dos medicamentos para perda de peso — a queda capilar — agora ganha destaque com o uso crescente dos agonistas do receptor GLP-1, como semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro, Zepbound). 

Mas afinal: o remédio está arrancando os fios da sua cabeça? A resposta, segundo as evidências científicas mais recentes, é mais complexa (e menos alarmista) do que parece. 

O que a ciência já descobriu sobre a relação entre GLP-1 e queda de cabelo 

Nos últimos anos, o interesse científico sobre esse tema cresceu exponencialmente. E os números são significativos. 

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2026, que analisou sete ensaios clínicos com mais de 4 mil usuários de GLP-1, concluiu que esses medicamentos estão significativamente associados a um risco maior de queda de cabelo. 

Outro estudo que analisou dados do sistema de farmacovigilância americano (FAERS) identificou que semaglutida e tirzepatida apresentaram risco elevado de alopecia — ou seja, a queda é relatada com frequência significativamente maior nesses tratamentos. 

Mas por que o cabelo cai? A culpa não é (exatamente) do remédio 

Aqui está a boa notícia: não há comprovação científica de que os análogos de GLP-1 provoquem dano direto ou tóxico ao folículo capilar. 

O que acontece, na grande maioria dos casos, é um fenômeno indireto conhecido como eflúvio telógeno — uma queda difusa e temporária desencadeada por um estresse fisiológico no corpo. Esse mesmo fenômeno já é bem documentado em situações como: 

  • Cirurgias e infecções graves 
  • Pós-parto 
  • Dietas muito restritivas 
  • Perda abrupta de peso (como após cirurgia bariátrica)  

O corpo interpreta a perda rápida de peso como um sinal de estresse e entra em “modo de preservação”: prioriza órgãos vitais (coração, rins, fígado) em detrimento de estruturas consideradas não essenciais, como o cabelo. 

Com isso, uma porcentagem maior de folículos capilares é empurrada prematuramente da fase de crescimento (anágena) para a fase de repouso (telógena). Cerca de dois a três meses depois, esses fios caem de uma só vez, criando a impressão de uma queda intensa e assustadora. 

Fatores que agravam o problema 

Além do estresse metabólico da perda de peso, outros fatores podem contribuir para a queda capilar durante o tratamento com GLP-1: 

Deficiências nutricionais 

Com a redução drástica do apetite, muitos pacientes passam a comer muito menos e, sem orientação adequada, acabam negligenciando nutrientes essenciais. Proteínas, ferro, zinco e vitamina D são pilares fundamentais para a saúde capilar, e sua carência pode acelerar a queda. 

Desmascaramento de alopecias preexistentes 

Em pacientes com predisposição genética para calvície (alopecia androgenética), o eflúvio telógeno pode “desmascarar” ou acelerar uma condição que ainda não era visível. A queda repentina faz a rarefação capilar se tornar evidente mais rapidamente. 

Alterações hormonais 

Embora em menor grau, as alterações metabólicas e a rápida perda de peso podem afetar indiretamente a estabilidade hormonal, incluindo a função tireoidiana, o que também contribui para a queda. 

Quem está mais sujeito a esse efeito colateral? 

Os estudos indicam que a queda de cabelo é mais frequente com semaglutida e tirzepatida, justamente os medicamentos associados às maiores e mais rápidas perdas de peso. Outros fármacos da classe, como liraglutida e dulaglutida, apresentam sinal de risco menor. 

Além disso, dados sugerem que as mulheres podem ser desproporcionalmente afetadas. Não está claro, porém, se isso se deve a fatores biológicos ou a uma maior percepção e notificação do problema entre elas. 

A queda é permanente? 

Não. Na esmagadora maioria dos casos, a queda é temporária e reversível. 

Uma vez que o peso se estabiliza e o corpo se adapta ao novo metabolismo, o ciclo capilar tende a se normalizar. O cabelo que caiu começa a crescer novamente, geralmente em um prazo de 3 a 6 meses após a estabilização do peso. 

O importante é entender que o folículo capilar não foi danificado permanentemente. Assim que o “estresse” passa e a nutrição é restabelecida, o cabelo volta a nascer. 

O que fazer para prevenir ou minimizar a queda? 

Especialistas recomendam algumas estratégias para reduzir o impacto capilar durante o tratamento com GLP-1: 

  1. Perda de peso gradual:

     Evitar o “efeito precipício” — a perda muito rápida e abrupta. Um emagrecimento mais lento e controlado reduz o choque metabólico. 

  2. Nutrição de qualidade:

     Mesmo com pouco apetite, priorizar alimentos ricos em proteínas, ferro, zinco e vitaminas. Uma dieta variada e balanceada é essencial. 

  3. Hidratação adequada:

     Manter-se bem hidratado ajuda o organismo a lidar com as mudanças metabólicas. 

  4. Acompanhamento médico:

     Não suspender o medicamento por conta própria. O mais indicado é monitorar a queda com o endocrinologista e, se necessário, envolver um dermatologista. 

  5. Suplementação:

     Em casos de deficiências confirmadas por exames, a suplementação de ferro, zinco, vitamina D ou proteínas pode ser indicada. 

 

Fontes: 

Pesquisa: Glucagon-like peptide-1 receptor agonists and hair loss: A systematic review and meta-analysis 

Pesquisa: Exploring the hair loss risk in glucagon-like peptide-1 agonists: Emerging concerns and clinical implications 

  

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